Desenvolvimento Sustentável, S.A.
Havia largos meses que João, dono de uma grande tinturaria industrial do Vale do Ave, pensava implementar um programa de responsabilidade social e um sistema de gestão ambiental na sua empresa. As emissões de dióxido de carbono não paravam de aumentar e as descargas de efluentes da sua fábrica contribuiam decisivamente para o estado calamitoso em que se encontrava o rio Ave. Era mau para o ambiente, mau para a comunidade envolvente e mau para a imagem da empresa.
Mas João só decidiu pôr mãos à obra quando se apercebeu que as certificações SA 8000 e ISO 14001 traziam vantagens competitivas, pois quem as tivesse ganhava pontos na conquista do mercado espanhol.
Como não percebia nada do assunto, contratou um famoso consultor internacional para o ajudar a montar o projecto. A primeira reunião que realizaram foi esclarecedora: João ficou a saber que deveria começar por planear a realização de um projecto social e ambientalmente sustentável, numa abordagem integrada, também conhecida por “holistic approach”. Para o efeito, começaria por desenhar uma “problem tree” e uma “objectives tree”, bem como uma “stakeholder analysis” rigorosa, as quais o deveriam ajudar a construir o seu “logical framework”, que deveria ser exaustivo na previsão dos “inputs” e dos “outputs”.
Terminada a reunião, João, que era uma lástima em inglês, esboçou um sorriso amarelo e depositou as suas esperanças num dicionário velho que tinha em casa, onde certamente encontraria uma boa tradução para aquelas expressões de “consultês”.
Como ainda se lembrava vagamente da palavra “tree” desde os seus tempos de liceu, começou por ver o seu significado, alcançando segundos depois o conteúdo do “advice” do consultor, que lhe dizia para plantar “trees”, árvores. “Não há dúvida”, pensou, “é isso que ele sugere para compensar os efeitos das emissões dos gases de estufa”.
Mas João jamais ouvira falar em “árvores problema” ou “árvores objectivos”. O espécime mais misterioso que conhecera fora um velho e contorcido bonsai que o sobrinho trouxera do Japão. Por isso, e sem pensar mais no assunto, João decidiu plantar eucaliptos. “São árvores de crescimento rápido”, pensou novamente, “que se multiplicam como cogumelos sem qualquer intervenção do homem”.
Mas João decidiu mais: decidiu que plantaria um eucalipto por cada 100 m3 de emissões de CO2 e gás metano. Era um indicador rigoroso e facilmente verificável, que permitia uma avaliação objectiva dos resultados alcançados.
E foi assim que, um ano depois, João logrou plantar 4.000 eucaliptos no terreno de 20 hectares contíguo à sua fábrica. Só que o ritmo de emissões da empresa não parava, e João, consciente da necessidade de dar continuidade ao seu projecto, viu-se forçado a arrendar os terrenos vizinhos para neles plantar tantos eucaliptos quantos fossem necessários para dar cumprimento à sua deriva ecológica. E foi assim que em pouco mais de dois anos, João plantou 16.000 eucaliptos ao longo de um total de 80 hectares de terreno.
Mas aquilo que João pensava ser uma obra notável, estava na verdade próximo de uma catástrofe ambiental de grandes proporções. Com a plantação de eucaliptos em regime de monocultura, João causara estragos em larga escala: os terrenos vizinhos secaram, porque os seus eucaliptos sugaram toda a água dos lençóis freáticos; os incêndios florestais propagaram-se descontroladamente; e registou-se uma forte diminuição na diversidade de espécies vegetais. Enfim, João foi responsável por uma tragédia que afectou centenas de agricultores, madeireiros e criadores de animais da região.
Como Pilatos, o consultor lavou as suas mãos daquele revés. A responsabilidade, dizia ele, devia ser assacada a João, que não fizera uma “SWOT analysis” do projecto, nem previra os riscos derivados da plantação de eucaliptos no seu “logical framework”.
Mas uma desgraça nunca vem só. João, acusado de crimes ambientais, ficou de tal forma absorvido pelos processos judiciais que lhe cairam em cima, que foi incapaz de antever as alterações trazidas pela globalização dos mercados, por via da qual, num espaço de meses, os seus clientes de sempre passaram a procurar fornecedores na China e na Índia, onde o serviço que ele prestava lhes ficava a um décimo do preço. Não um, dois ou três clientes, mas todos eles.
E foi assim que João, depois de passar de besta a bestial e de bestial a besta, saboreou definitivamente o sabor da derrota: num abrir e fechar de olhos, as encomendas acabaram e a chaminé da fábrica perdeu o fôlego. No final de uma tarde de Verão, as máquinas pararam, os trabalhadores foram para casa gozar o subsídio de desemprego e a fábrica fechou. Era o fim.
Mas naquele dia, João limitou-se a olhar tranquilamente para os 80 hectares de arvoredo que pintavam de verde o horizonte. E sorriu. Sorriu muito. Porque onde todos viam o fim de uma era, João contemplava o verde da esperança. Porque onde todos viam uma fábrica fechada, João contemplava uma grande propriedade. Porque onde todos viam tecidos por tingir, João via 50.000 toneladas de madeira, papel e pasta de celulose por processar. Enfim, um belo negócio.
E depois do abate dos eucaliptos, ainda lhe sobrava um terreno imenso para se lançar no seu novo projecto: um magnífico condomínio de luxo onde os moradores disfrutariam de campo de golfe, piscina olímpica, centro comercial e segurança 24 horas por dia. A preços de luxo, claro.
Porque João podia não saber distinguir um eucalipto de um simples coqueiro, um “input” de um “output”, um “logical framework” de uma “SWOT analysis”, mas já sabia que nada, mas mesmo nada, pagava a qualidade de vida num condomínio fechado. Afinal – João aprendera essa lição com o consultor – ter bom ambiente é fundamental.
1 Comments:
Gostei muito, caro Tiago.
Parabéns pelo conto.
:)
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