Terça-feira, Março 21, 2006

BOAS PESSOAS E PESSOAS DE BEM

A mão colada à cara rematava o “vê” desenhado pelo seu braço fechado, ancorado no cotovelo assente no tampo da secretária. A boca aberta e o olhar ausente completavam aquela “natureza morta” que fixava o ecrã do computador: Maria abria e fechava o “messenger” sucessivamente, em busca de companhia, mas ninguém estava on-line. Mas quando finalmente decidiu compensar a solidão acendendo um cigarro, sentiu o trepidar do soalho do corredor. Alguém se aproximava.
Com uma mão, Maria premiu a tecla F9 do teclado, programada para abrir a folha Excel do balancete daquele mês; com a outra, desarrumou um maço de folhas, simulando grande azáfama. Por fim, e na ânsia de controlar a situação, antecipou-se ao chefe que então entrava pelo gabinete, lançando-lhe um “bom dia” melodioso, mas tão ou mais falso do que uma camisa Chanel comprada na feira de Carcavelos.
Habituado a estes jogos de charme, o chefe, sem responder àquele “bom dia”, entrou directamente no assunto: “Gostava que me dissesse o que pensa do Miguel… contratei-o há poucos meses e já é tempo de ter uma avaliação do seu desempenho…”
Maria suspirou de alívio (o chefe não lhe perguntara pelo relatório que já deveria ter concluído há meses) e aproveitou para amansar a fera, bem sabendo como o chefe adorava que elogiassem o seu talento de “headhunter”: “Bom… o Miguel é um excelente profissional… acho que é competente, discreto… e acima de tudo muito trabalhador. Não tenho tido dificuldades em lidar com ele: tudo o que eu lhe mando fazer, ele faz bem feito… e na hora”.
Depois de a escutar com atenção, logo o chefe replicou cinicamente: “Então óptimo, Maria. Porque a partir de hoje o Miguel passará a ser o seu chefe. Fui eleito administrador da empresa, mas precisava de ter a certeza de que ele seria tão capaz de tirar partido do seu magnífico talento, quanto eu fui…”
Num ápice, o sorriso aberto de Maria perdeu expressão, na mesma proporção com que o do chefe ganhou malícia. De tão desiludida, Maria foi incapaz de prosseguir o diálogo. O chefe sabia que tal sucederia, e aproveitou o silêncio para se despedir com um “bom dia” mais falso do que uma mala Gucci comprada na feira do Relógio.
Em bom rigor, o que mais magoou Maria não foi tanto que tivessem nomeado um subordinado seu para a chefiar, mas sim que um trabalhador sem berço, como Miguel, a tivesse ultrapassado daquela forma tão aviltante. Porque, para Maria, muito mais valioso do que o mérito profissional, eram os contactos sedimentados através de um nome de família, ao longo de anos de uma vida social.
Acaso saberia Miguel quanto trabalho lhe dera ganhar aquele emprego? A quantas festas de beneficência tivera de ir? Quantas fotografias lhe tiraram para revistas de qualidade duvidosa? Com quantos quilos de rímel tivera de se maquilhar para seduzir o director de recursos humanos? Claro que não sabia. Miguel não passava de um trabalhador honrado, daqueles a que normalmente se chamam de “boa pessoa”. Ora Maria era uma “pessoa de bem”, coisa muitíssimo diferente…
Sucede que nos meses que se seguiram, Miguel fez um trabalho notável: lançou novos produtos, apostou na contratação de profissionais ambiciosos e competentes, cortou gastos desnecessários e implementou um plano de crescimento orgânico, de tal modo bem sucedido que, ao fim de escassos três anos, a empresa conseguiu cotar-se no PSI 20. Nas suas mãos, a empresa aumentou seis vezes de valor. Em grande medida, à custa do esforço dos seus colaboradores, ao qual nem mesmo Maria logrou escapar.
Até que um dia os jornais lançaram uma notícia que rebentou como uma bomba: uma concorrente portuguesa decidiu lançar uma OPA sobre a empresa. A oferta foi hostil, mas o preço foi tão irresistível para os seus accionistas que estes não tiveram quaisquer dúvidas em decidir vender as suas participações.
No dia em a operação foi dada como concluída, o presidente da empresa adquirente organizou uma conferência de imprensa num hotel de luxo. Miguel, refastelado no cadeirão do seu gabinete, decidiu vê-la pela televisão, confiante de que o seu magnífico trabalho seria reconhecido, mesmo que o seu nome não fosse citado.
Mas o resultado da conferência não poderia ser mais desanimador. O novo presidente tinha um plano de “downsizing” para a empresa, que passava pela rescisão de 1200 contratos de trabalho: os de Miguel e de Maria incluídos. A notícia era terrível.
Mas mais terrível foi o que se lhe seguiu. No momento em que o presidente saia do hotel para entrar num Jaguar, Miguel pode ver a figura sorridente de Maria no interior da viatura. Maria gesticulava e falava com o novo presidente, com um incrível à vontade. Com o à vontade de um familiar. Dir-se-ia mesmo com à vontade de mulher do novo presidente da empresa. Na qual, de facto, se havia tornado.
Só então Miguel percebeu que enquanto que ele investira toda a sua energia para dar valor a uma empresa que não lhe pertencia, Maria apostou toda a sua sagacidade no único activo que era verdadeiramente seu: o apelido, ao qual estavam associadas, por inerência, contactos na alta sociedade e excelentes oportunidades de casamento, como se veio a confirmar.
Tudo somado, Maria venceu em toda a linha, pois cumpriu o seu “plano de negócios”. E Miguel rendeu-se ao seu inegável talento, que o administrador afinal não soubera reconhecer.

5 Comments:

Blogger Arrebenta said...

Ó..... tempo que eu já não vinha aqui.
Façam favor de passar pelo Braganza Mothers

http://braganza-mothers.blogspot.com/

12:36 AM  
Blogger Trakinas said...

Boa, Tiago.
:)

Arrebenta:
É já!

1:18 PM  
Blogger Urso Polar said...

Estás cruel. Pena é que o sejas tão poucas vezes. Vê lá se arranjas tempo para nos brindares com pérolas mais frequentemente. os porcos agradecem :o)

9:23 AM  
Blogger Arrebenta said...

A Rainha da Sucata

Andam por aí umas vozes em sobressalto com o que se escreve na Net, e, à cabeça, com a crescente influência das temáticas, abordadas nos “blogues”, sobre a Opinião Pública Nacional. Cumpre-me aqui dizer que sou novo nos “blogues”, e suficientemente antigo, na Opinião Pública. E como me estou, à cabeça, aparentemente – depois, verão que não... – zenitalmente borrifando para os “blogues”, vou, pois, começar pela Opinião Pública.

Ora, em qualquer país pretendido civilizado, a Opinião Pública não é mais do que um misto de emoção e raciocínio difuso, que leva a que as sociedades exerçam, em conjunto, as suas auto-análises, os seus direitos espontâneos de aprovação e desagrado, e uma necessária catarse colectiva, fruto dos sabores e dissabores do Rumo da História.
Os períodos de Opressão e de Distensão medem-se, pois, pelo vigor e maturidade que essa Opinião Pública manifestar.
Na sua coluna de despedida do “Diário Digital”, Clara Ferreira Alves, criatura que nunca frequentei, nem sequer sabia que escrevia, mas que, naquele panorama do Ridículo Nacional, apenas me fazia, de quando em vez, sorrir, entre as suas apalhaçadas oscilações entre o negro azeviche e o louro caniche, dizia eu, centra-se, num dado momento da sua despedida, sobre a perniciosa influência dos blogues na tradicional “Imprensa Impressa”: de acordo com ela, “A Blogosfera é um saco de gatos, que mistura o óptimo com o rasca, e (as vírgulas atrás são todas minhas) acabou por se tornar num magistério da opinião (d)os jornais”, os quais nunca foram sacos de gatos, sempre souberam recolher o óptimo, e nunca constituíram um prolongamento do magistério dos Interesses Ocultos Predominantes.

É óbvio que em todos os jornais, como em todos os "blogues", como em todos os programas de televisão de carácter rasca, -- terríveis eixos do mal --, “existe e vegeta um colunista ambicioso, ou desempregado, (as vírgulas continuam a ser minhas), ou um mero espírito ocioso e rancoroso”, que pode ser vário, como os nomes de Satã.
“Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, [publicando] agora as ejaculações”, as quais deveriam continuar a ser privadas, porque o exercício da cobrição, que tantas vezes levou a que um mau texto aparecesse nas parangonas da Crítica, fruto de uma noite mais ou menos bem passada, ou de uma jantarada em lugar eminente, poderia, e deveria, pelos mais elementares deveres do Pudor, nunca ultrapassar a atmosférica fronteira do Secreto e do Invisível. Para mais, parece que, nos blogues, escancarada janela rasgada sobre o Tudo, já não existe aquela claustrofóbica sensação das escassas três ou quatro janelinhas, onde a iluminação da Crítica Impressa revelava ao profano o pouco que se fazia, e, logo, podia aspirar a existir. Parece que nos blogues, dizia eu, se fala agora abertamente de tudo e de todos, e não apenas dos amigos, dos que nos assalariaram o texto, ou dos que nos pagaram para sermos gerentes da sua irremediável Insignificância.

Compreende-se a angústia da Clarinha: com a ascensão dos “blogues” e o declínio dos jornais, anuncia-se também o fim do monopólio das palas postas nos olhos dos burros, e daqueles que tinham o exclusivo poder de as pôr.
Clara Ferreira Alves manifesta-se inquieta pelo seu Presente, e teme pelo seu Futuro. Mais acrescento eu que o que está em jogo é, sobretudo, o seu PASSADO e o de todos os que se lhe assemelham, porque a Cabala, que, durante décadas, tão habilmente geriram, se está agora a desmantelar por todos os lados.

Nos “blogues”, nada mais existe do que quem diariamente fale de tudo e todos, sem defender quaisquer sistemas que não os da prevalência do Excelente sobre o Medíocre, do Livre sobre o Encomendado, e, sobretudo, quem o faça GRATUITAMENTE, ou seja, por mero Dever Cívico, por vontade de intervir, por caturrice, ou tão-só pela amistosa gratidão de poder Partilhar.

É verdade que com os “blogues”, poderá estar em jogo o fim da Palavra Comprada, e já estar a vislumbrar-se o início da Era da Palavra Livre e Particular, o Reino da Palavra Gratuita. Talvez seja isso a Comunicação Global. Em breve, também aí se fará a separação do Trigo do Joio, e passará a vencer quem melhor escrever e mais for lido, dispensando-se as tradicionais encomendas das almas.

Penso, publico, sou lido, e logo existo. Tudo o resto é vão.

Ah, e isto não é um texto para resposta, sobretudo qualquer tipo de resposta, como dizia o Vasco Pulido Valente, que metesse “na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo.

Muito obrigado.”

http://braganza-mothers.blogspot.com/

2:16 AM  
Anonymous Anónimo said...

As mulheres são todas umas putas. Definitivamente.

12:02 PM  

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