O Mundial às fintas com o PIB
Quando Luís Figo ensaia o drible pelo lado esquerdo do relvado, com os olhos colados à bola e a cabeça a sintonizar a latitude da baliza, vemos bem mais do que um semideus a levar o país aos ombros para cumprir a vontade de Zeus e de Luís Filipe Scolari. E a magia do esférico que comanda com os pés tem uma missão ainda mais poderosa do que a de simplesmente ultrapassar a linha imaginária daquele rectângulo com 18 metros quadrados, que dá pelo nome de baliza.
Porque, como em tudo, há sempre um ângulo bem mais quadrado do que o ângulo recto: se rebobinarmos a fita e visionarmos o filme em câmara lenta, não veremos um dos maiores craques mundiais a bolinar contra ventos e marés, como um Vasco da Gama ressuscitado, no meio campo do adversário. Veremos, isso sim (pelo menos os mais permeáveis à publicidade), um atleta de alta competição com chuteiras Nike Mercurial Vapor III a conduzir, com o estilo de um homem Armani, um esférico Adidas Match Ball 2006 com tecnologia Power Balance.
Veremos também, ao fundo do ecrã, uma linha de painéis electrónicos a fazer publicidade subliminar às quinze multinacionais que deram o seu apoio ao Mundial da Alemanha: desde as grandes marcas de cerveja, refrigerantes e produtos de barbear, até aos gigantes mundiais de telecomunicações, cartões de crédito e pneus para automóveis.
No intervalo dos jogos, teremos ainda a oportunidade de ver um anúncio ao “relógio oficial da selecção”, que leva a assinatura de Luís Filipe Scolari e pode ser pago em cinco mensalidades.
Sejamos lúcidos, porque mesmo ao lado do Mundial da Alemanha, outro campeonato se joga: o campeonato do marketing global, bem mais competitivo e lucrativo do que o de futebol.
Só para o Mundial 2006, aqueles mesmos quinze patrocinadores investiram mais de 650 milhões de Euros em publicidade. Dez vezes mais do que o investimento realizado para o Mundial de Itália de 1990. Ou, visto sob o ângulo das contas públicas nacionais, o equivalente a 0,4% do PIB português. E mais do que o valor do aumento da riqueza nacional entre 2004 e 2005.
Só que o campeonato do mundo é mesmo na Alemanha e o retorno do investimento vai direitinho para as grandes multinacionais dos países ricos, para os investidores e para o país anfitrião. Lamentavelmente, os seus efeitos não se farão sentir nas contas públicas nacionais, como se fizeram sentir durante o Euro 2004. Ou será que farão?
Ultimamente, é frequente ouvir alguns comentadores dizer que o Mundial vai deixar a sua marca no PIB nacional. Partindo dos 262 dias úteis de que os portugueses dispõem anualmente para trabalhar e mostrar quanto valem, perguntam eles quanto valem os portugueses quando podem ver a selecção jogar num canal nacional, às duas da tarde, num dia da semana. Como é evidente, pouco, ou mesmo nada, como reconheceram aliás os deputados da Nação, ao cancelarem o plenário inicialmente agendado para a tarde em que a selecção jogou com o México.
Assim, do mesmo modo que o país viu o PIB crescer no primeiro trimestre, em parte à boleia da menor frequência de feriados face a igual período do ano passado, podemos sempre especular se o país não arrepiará caminho no segundo trimestre, à custa das nossas “escapadelas” para ver o Mundial. O nosso ministro das Finanças diz que, se a produtividade for reduzida e as exportações não puderem crescer, a salvação só poderá estar do lado do consumo interno. Mas será que o consumo de cachecóis, bandeirinhas, cerveja e ecrãs LCD fazem andar o país?
A situação é complicada. E tudo isto porque não conseguimos mesmo sobreviver sem deixar de ver 22 rapazes correr atrás de uma bola de couro e ar comprimido, para a colocarem na baliza do adversário, sem poderem usar os braços, sob a batuta de um homem de preto.
Às vezes pergunto-me se não devíamos criar uma lei que mandasse acelerar o movimento de rotação da terra para que o ano tivesse mais do que 365 dias. Já que o Governo faz tantas leis, porque não faz mais esta?
Porque, como em tudo, há sempre um ângulo bem mais quadrado do que o ângulo recto: se rebobinarmos a fita e visionarmos o filme em câmara lenta, não veremos um dos maiores craques mundiais a bolinar contra ventos e marés, como um Vasco da Gama ressuscitado, no meio campo do adversário. Veremos, isso sim (pelo menos os mais permeáveis à publicidade), um atleta de alta competição com chuteiras Nike Mercurial Vapor III a conduzir, com o estilo de um homem Armani, um esférico Adidas Match Ball 2006 com tecnologia Power Balance.
Veremos também, ao fundo do ecrã, uma linha de painéis electrónicos a fazer publicidade subliminar às quinze multinacionais que deram o seu apoio ao Mundial da Alemanha: desde as grandes marcas de cerveja, refrigerantes e produtos de barbear, até aos gigantes mundiais de telecomunicações, cartões de crédito e pneus para automóveis.
No intervalo dos jogos, teremos ainda a oportunidade de ver um anúncio ao “relógio oficial da selecção”, que leva a assinatura de Luís Filipe Scolari e pode ser pago em cinco mensalidades.
Sejamos lúcidos, porque mesmo ao lado do Mundial da Alemanha, outro campeonato se joga: o campeonato do marketing global, bem mais competitivo e lucrativo do que o de futebol.
Só para o Mundial 2006, aqueles mesmos quinze patrocinadores investiram mais de 650 milhões de Euros em publicidade. Dez vezes mais do que o investimento realizado para o Mundial de Itália de 1990. Ou, visto sob o ângulo das contas públicas nacionais, o equivalente a 0,4% do PIB português. E mais do que o valor do aumento da riqueza nacional entre 2004 e 2005.
Só que o campeonato do mundo é mesmo na Alemanha e o retorno do investimento vai direitinho para as grandes multinacionais dos países ricos, para os investidores e para o país anfitrião. Lamentavelmente, os seus efeitos não se farão sentir nas contas públicas nacionais, como se fizeram sentir durante o Euro 2004. Ou será que farão?
Ultimamente, é frequente ouvir alguns comentadores dizer que o Mundial vai deixar a sua marca no PIB nacional. Partindo dos 262 dias úteis de que os portugueses dispõem anualmente para trabalhar e mostrar quanto valem, perguntam eles quanto valem os portugueses quando podem ver a selecção jogar num canal nacional, às duas da tarde, num dia da semana. Como é evidente, pouco, ou mesmo nada, como reconheceram aliás os deputados da Nação, ao cancelarem o plenário inicialmente agendado para a tarde em que a selecção jogou com o México.
Assim, do mesmo modo que o país viu o PIB crescer no primeiro trimestre, em parte à boleia da menor frequência de feriados face a igual período do ano passado, podemos sempre especular se o país não arrepiará caminho no segundo trimestre, à custa das nossas “escapadelas” para ver o Mundial. O nosso ministro das Finanças diz que, se a produtividade for reduzida e as exportações não puderem crescer, a salvação só poderá estar do lado do consumo interno. Mas será que o consumo de cachecóis, bandeirinhas, cerveja e ecrãs LCD fazem andar o país?
A situação é complicada. E tudo isto porque não conseguimos mesmo sobreviver sem deixar de ver 22 rapazes correr atrás de uma bola de couro e ar comprimido, para a colocarem na baliza do adversário, sem poderem usar os braços, sob a batuta de um homem de preto.
Às vezes pergunto-me se não devíamos criar uma lei que mandasse acelerar o movimento de rotação da terra para que o ano tivesse mais do que 365 dias. Já que o Governo faz tantas leis, porque não faz mais esta?

3 Comments:
A Almôndega Filantrópica
"Devemos aproveitar os resultados do Futebol para a Economia"
D. Aníbal, o-de-Boliqueime
Brevemente, o Oráculo pronunciar-se-á, a Economia reagiu positivamente ao estímulo do chuto: uma melhoria do investimento nacional de 0, 000002301%; um aumento, na "Casa dos Frangos de Moscavide", da procura de churrascos, sacos de batatas fritas e "pickles", na ordem dos 37%; um acréscimo da violência doméstica de 43%; uma procura acrescida, em todo o país, de 75%, dos serviços de atendimento de intoxicações alcoólicas; um gajo e uma "gaija" todos partidos, por queda do alto da Estátua do Marquês e, ah... a ver se não me esqueço de algo... deixa cá ver... ora, é isso mesmo: sobretudo, um aumento do investimento estrangeiro sustentado, no nicho de fabrico de bandeiras nacionais.
É a Retoma, e vai daqui até à Grande Muralha da China.
Consta que -- gloríolas de uma Gloriosa História Milenar -- até as criancinhas das manufacturas chinesas do Império do Meio já aprenderam, com isto tudo, que a Bandleila Plotuguesa é feita de amalelo, vlemelho e velde, com cinco qulinas e sete pagodes.
Globalizações.
Tiro o meu chapéu ao talento corrosivo do arrebenta, a recomendo-lhe que tenha cuidado com as úlceras.
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