terça-feira, fevereiro 06, 2007

Dark Knights

terça-feira, outubro 24, 2006

Miguel Sousa Tavares, o Monge Copista

segunda-feira, outubro 23, 2006

400

Pois que temos quatrocentos 'postes' espetados na blogoesfera e agora mais um portanto. (e será que o tapete é voador?).
Recebi um gentil imeil de uma gentil pessoa: a petição online contra a famosa torre de vidro na marina de Cascais, esse ancoradouro de grande categoria.
Como eu gosto muito deste pobre e ignorante e atrasado país da sardinha assada e da sande de torresmos, decidi por graçola assinar também. Decerto tais promotores têm melhores soluções para este pardieiro mal-frequentado.
Entrei com o número 1206 e lá estou (até ao momento) como José Pacóvio do Casebre e Rés-do-Chão Cave, com o bilhete identidade 12345678. Toma lá ó Capucho! Agora também quero é o pavilhão 'Dramático' elevado a património nacional, o que, pela condição em que está, parece-me que já o seja.
Espero igualmente por outras petições online. Assim sim teremos a verdadeira e única e inusitada democracia directa. A anexação castelhana, de facto ou de jure, como modo de sub ou sobre desenvolvimento. A estupidificação televisivo-social. A implosão do Estado. A energia barata mas núclear não obrigado. O emprego sim, trabalho não. O fim-de-semana de cinco dias. As férias de sessenta dias. Ou a bem gostosona: os ricos que paguem a crise.
Quero essas petições online para ver como a escumalha vota. Pelo caminho esse grande perito de sondagens, ex-sindicalista, douto alcóolico, podia fazer 'copy-paste' e vender a coisada toda ao Sol ou ao Expresso. Ou a quem ele quiser.

Retrato de um traficante bem aprumado

Era um fulano distinto, bem aprumado, daqueles a quem um lenço de seda na lapela oferecia requinte, e não o contrário. Expressava-se num português sublime, com aquela displicência afectada do aristocrata que não era.
Na verdade, conquistara tudo sozinho, a pulso. E a murros na mesa. E aos gritos também. Não fossem os seus colaboradores pensar que não era digno da sua posição de chefe, para quem a cólera é uma virtude e não um pecado capital.
Só assim conseguira libertar-se dos grandes embaraços gerados pelas suas decisões precipitadas, pelos negócios geridos no fio da navalha, pelos contratos fechados sem garantias, pelo buraco financeiro que ia abrindo nas empresas por onde passava.
Quando as coisas corriam para o torto, vexava os colaboradores em público, esmagando-os com a sua voz de trovão. Habitualmente, completava as suas razias com um inquérito que fazia questão de apresentar aos accionistas, onde identificava os “responsáveis” que inventava à pressa. Os riscos não foram acautelados? A culpa é de x. A indemnização foi mal calculada? A responsabilidade é de y. Com ele, a culpa nunca morria solteira, e tinha mesmo um especial gosto em fazê-la casar com os outros.
Pensava de si próprio ser uma excepção ao princípio do “quem não trabuca não manduca”. Porque a sua vida demonstrara-lhe exactamente o contrário. Como jamais se preocupara com as minudências do trabalho, sobrara-lhe um tempo imenso para se dedicar à liderança.
E a liderança, pensava, é uma função altamente especializada, que requer talento inato e, sobretudo, muito tempo. Tempo para definir prioridades, tempo para delegar trabalho, tempo para apurar responsabilidades e tempo para a pequena política.
À qual, no seu caso, fez questão de juntar a política à séria: assim que se lhe afigurou necessário para a carreira, inscreveu-se no partido que à época lhe dava mais garantias, bem sabendo que as marés mudariam várias vezes de cor e de direcção. E que ele, como um náufrago, teria de se agarrar ao madeiro se quisesse sobreviver até nova calmaria.
No princípio, o partido apenas lhe abriu as portas para os pequenos lugares. Mas pouco depois, à custa dos padrinhos certos, acedeu à gestão de algumas empresas, acumulando pensões e sucessivas regalias. Se bem que a melhor regalia tenha sido a riqueza de contactos que pôde coligir e sedimentar, com a astúcia de uma aranha que tece a sua teia.
E quando, no final da sua carreira política, o partido se esqueceu dele, ele fez questão de não se esquecer do partido, ao qual passou a recorrer sempre que fulano ou cicrano precisasse de uma pequena atenção. Do senhor chefe de gabinete, do senhor Director-Geral e assim por diante, bem entendido.
Coisa pouca, coisa de amigo e, sobretudo, coisa discreta. Saberia alguém dessas pequenas cortesias? Impossível. Na política, aprendera as virtudes do silêncio e da discrição, com a argúcia de um felino na aproximação à sua presa.
E foi assim que, naqueles anos, enriqueceu principescamente, com mérito e eficiência, como gostava de pensar de si próprio. Por isso, não compreendeu quando o Ministério Público o acusou de tráfico de influências. Tráfico não, isso é coisa para mercadorias, pensou. Ora ele limitara-se a harmonizar os interesses difusos de partes distintas, com o talento de um compositor que junta três tons num acorde perfeito.
Se se fez cobrar por isso? Pois claro que sim. Bach também teve vinte filhos para sustentar.
Se é crime? Pois seja. Quando muito, pedira uma pequena atenção para obter uma decisão simpática, a favor de um amigo não menos simpático. Tudo entre amigos, é bom de ver.
No dia da audiência de julgamento, vestiu o seu melhor fato e o seu melhor lenço, pois que a justiça sempre fora uma mulher fatal, mas elegante. Ouviu a sentença com a leveza de um “dandy” e saiu despreocupadamente do tribunal, sentenciado numa pequena multa. Chamou o chauffeur, a quem pediu para o levar ao alfaiate, antes da reunião que agendara com um conhecido empreiteiro. Tinha uns dinheiritos a receber e o fato estava-lhe demasiado justo para um Verão tão quente como aquele. E, afinal, “good manners are good business”.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Não há duas sem três

João nunca quis trabalhar. Sempre levara a vida como a cigarra de La Fontaine e, mesmo assim, jamais lhe faltara sorte ou dinheiro. Passou pelos bancos da escola como um foguete que não deixa rasto e só começou a levar bofetadas da vida quando a mãe, que sempre lhe aforrara os vícios, adoeceu e deixou de trabalhar.
Felizmente, o que João não tinha em hábitos de trabalho, sobrava-lhe em bom feitio: apesar da miséria em que se deixara cair, jamais lhe passara pela cabeça fazer batota na vida e ganhar dinheiro à custa dos outros. Como alternativa, gastava o pouco dinheiro que tinha a jogar na lotaria. Com um pequeno truque: comprava cautelas ao mesmo vendedor pelo menos três vezes seguidas. Era aquilo a que chamava de “não-há-duas-sem-três”.
Poucos meses passaram até que João tivesse a demonstração do seu destino abençoado: à terceira cautela comprada no mesmo quiosque, ganhou uma soma absurda de dinheiro no Euromilhões. O mais espantoso foi ver que João, tão confiante na sua estrelinha, nem sequer manifestou grande surpresa quando confirmou o número sorteado na vitrina da casa de apostas.
E foi com a mesma naturalidade que João, subitamente milionário, decidiu presentear os colegas de farra com mimos dignos de Cleópatra: saldou-lhes dívidas ao banco, ofereceu-lhes automóveis topo de gama e pagou-lhes dezenas de viagens a destinos exóticos.
Como era de prever, não durou muito até João perder tudo o que amealhara. É que, para além dos amigos a quem não sabia dizer não, João viciara-se no jogo, contando que o seu truque lhe sorrisse também nas “slot machines”. Só que, desta vez, o último a sorrir foi mesmo o dono do Casino…
E foi assim que João foi remetido à mesma miséria esfarrapada e lúgubre, onde nem mesmo a esperança conseguia ver a luz do dia. Enfim, a esperança dos outros, pois a sua tinha até mesmo razões para desafiar a lei das probabilidades: em escassos seis meses, João teve o desplante de voltar a ganhar o Euromilhões, à custa do seu truque!
A façanha foi de tal forma inaudita que no dia seguinte à vitória tinha vários canais de televisão plantados à porta de casa. Mais uma boa centena de curiosos. E um batalhão da GNR, não fossem as coisas azedar.
E azedaram: a populaça, revoltada por não poder chegar à fala com o João-dos-milhões, como passara a ser conhecido, rebentou numa fúria e partiu tudo à volta, desde automóveis a vitrinas.
João escapuliu-se pelas traseiras com a sua mãe, aturdida pela confusão. Acabou por se isolar na Suiça, a salvo da inveja de uns e da intrujice de outros. Escaldado com o passado, confiou o seu dinheiro a um famoso gestor de fortunas sedeado em Genebra, que lhe prometeu mundos e fundos se lhe desse carta branca para investir nos assets certos. Deslumbrado com as palavras do seu personal manager, que lhe falava em securities, warrants e options, deixou-se embalar na lábia de quem se viria a revelar um burlão profissional. Munido de uma procuração irrevogável que lhe dava plenos poderes, o personal manager acabaria por levar-lhe a fortuna e desaparecer do mapa com a destreza de um ilusionista.
Naquele momento, João só pensava na sua estrela. Onde raio se teria metido? Que partida lhe teria pregado novamente?
Mas como até nem mesmo a sorte nos cai do céu, João não perdeu tempo a procurar a sua, pela terceira vez. E passados três meses, à terceira vez, violá!, pela terceira vez enriqueceu. Só se espantaria quem não acreditasse no destino…
Só que, já se sabe… não foi só neste caso que não houve duas sem três: à custa da patifaria que o personal manager fizera em seu nome, João viu-se subitamente designado devedor em dezenas de processos e execuções fiscais. Foram milhares os credores a aproveitarem-se do seu infortúnio e a dizerem-lhe cinicamente que, afinal, sempre há duas sem três.
O que os credores não sabiam era que João, de regresso às apostas, inventara um novo truque. Chamou-lhe de “não-há-três-sem-quatro”.
O desfecho da história é conhecido e escusado será contar. Afinal, as estrelas nunca nos desiludem.

quinta-feira, agosto 03, 2006

O descanso de um workaholic

Pedro era viciado em trabalho. Literalmente. Daqueles que adorava reuniões difíceis, infestadas pelo fumo de tabaco e, sobretudo, agitadas e barulhentas. Toda esta animação gerava-lhe um estado de alerta permanente e uma anormal produção de endorfinas. Rejubilava com aquele esforço permanente e tinha mesmo a sensação de ser ele, e não Deus, quem escrevia direito por linhas tortas.
Mas naquela manhã Pedro sentiu uma fortíssima dor de cabeça. O susto foi suficientemente grande para decidir consultar um médico, o que não fazia há anos. O diagnóstico, Pedro já suspeitava, era simples: estava com um princípio de esgotamento. A terapia, conhecia-a também, aconselhava repouso absoluto. E foi assim que, pela primeira vez em 15 anos, Pedro decidiu gozar férias à séria e rumou com a mulher, Rita, para um resort de luxo, algures numa ilha do Pacífico Sul.
O hotel era paradisíaco e oferecia todas as condições para um descanso retemperador. Todas as condições que não dependessem de Pedro, entenda-se, pois logo à chegada, Pedro fez orelhas moucas do conselho médico: às sete da manhã, sentava-se no salão de pequenos-almoços, ligava o laptop à Internet e percorria todos os sites financeiros internacionais, para não perder pitada do “mundo lá fora”. Regularmente, utilizava o skype para longas conversas com os colegas de trabalho. Ao final da tarde, sintonizava o Bloomberg na televisão. E era assim que passava os dias, sem tempo para piñas coladas, nem banhos de mar. Não foi portanto de espantar quando sentiu uma nova nevralgia aguda, ao fim de escassos 10 dias de férias.
Quando tal sucedeu, Rita não foi de modas: deu sumisso ao laptop e tirou-lhe o acesso à televisão, dando instruções para que lhe proibissem a entrada na sala de computadores do hotel.
Pedro ficou literalmente isolado do mundo exterior. No princípio, custou-lhe tanto como a um toxicodependente no início de uma desintoxicação. Sentia-se incompreendido e extremamente ansioso. Mas, ao fim de uma semana, começou paulatinamente a gozar a estadia: já se entretinha no mar a fazer mergulho junto aos corais e coleccionava conchas exóticas. Ao final da tarde, dava longos passeios solitários pela praia. Quando o stress apertava, punha-se a construir telemóveis de areia, uma espécie de metadona que aparentemente o serenava.
Ao fim de uns dias, Pedro estava visivelmente descansado, não falava em trabalho e tinha um novo sorriso, mais luminoso. Não havia dúvidas: o médico acertara na cura. Rita estava delirante.
Até que, no dia do regresso, antes de apanhar o avião, o sorriso fechou-se-lhe novamente. A expressão carregou-se e, como quem exala a última palavra antes do derradeiro suspiro, Pedro só foi capaz de dizer “te-le-mó-vel…”. Rita ficou aflita, mas não conseguiu compreender o que o afligia. Para seu alívio, Pedro lá conseguiu balbuciar um segundo vocábulo: “ba-te-ria…”. Aparentemente, pensou Rita, Pedro reportava-se aos seus dias de praia, onde se divertira a construir telemóveis de areia.
Mas Rita não teve sequer tempo para concluir o raciocínio, pois Pedro fez um esgar de dor intensa e caiu redondo no chão. Pedro acabava de ter um enfarte. Valeu-lhe a rapidez dos paramédicos, que lhe salvaram a vida.
Só meses depois percebeu Rita que a inacreditável preocupação de Pedro residira na falta de autonomia do telemóvel para aguentar a longa viagem de avião que os devia trazer de regresso a casa. E, pior do que isso, descobriu que Pedro, durante aqueles passeios solitários na praia, usara e abusara do telemóvel, que de tão sofisticado era capaz de processar documentos e trocar e-mails.
Mas agora Pedro deixara-se disso. Não por vontade própria, mas porque deixara de ter opção. O enfarte disciplinara-lhe a vida ao ponto de ter de respeitar horários rígidos e fazer dietas insípidas. Tudo aquilo que sempre o aconselharam a fazer e que sempre se recusara cumprir. A vida tornara-se aborrecida, mas afinal Deus escreve direito por linhas tortas: incapaz de se tratar com a terapia, Pedro foi forçado a curar-se com a doença.

quarta-feira, julho 12, 2006

Um ano de férias

Todos os anos era a mesma coisa. Ao fim de 11 meses de trabalho escravo, Mário, apesar da sua dedicação e assiduidade exemplares, só tinha direito a receber o prémio que a lei “generosamente” lhe concedia: 25 dias úteis de férias pagas.
Mas ao fim de 10 anos sem aumentos salariais, Mário decidiu agarrar as rédeas do seu destino: já que tinha de continuar a ganhar sempre o mesmo, pelo menos podia tentar reduzir o número de dias que trabalhava por ano.
O seu plano engenhoso começou por levá-lo ao altar. Isso mesmo. A sua eterna namorada fizera-lhe um ultimato e Mário acedeu, dando o seu sim ao pedido de casamento (e aos 15 dias de faltas justificadas previstas na lei na ocorrência de matrimónio, bem entendido…).
Para felicidade de Mário, o casamento deu os seus frutos e a sua mulher deu à luz duas lindas crianças. É certo que os primeiros meses de paternidade deixaram Mário esgotado. Mas pelo menos pôde beneficiar de cinco dias úteis de licença de paternidade, aos quais somou 60 dias de gozo do remanescente da licença de maternidade da sua mulher.
E quando despertaram os primeiros sintomas de papeira e sarampo nos seus filhos, Mário não perdeu tempo a gozar um total de 30 dias de faltas justificadas para poder ir com os miúdos ao médico e ficar com eles em casa. Afinal, tratava-se de assistência inadiável a filhos menores.
Com o passar do tempo, Mário ganhou a antipatia do patrão, que via naquele arrazoado de faltas um estratagema para não pôr os pés na empresa e ainda assim receber o salário. Por isso, à cautela, e antes que o patrão o pusesse na ordem, Mário filiou-se no sindicato, onde rapidamente chegou a delegado sindical, fruto dos seus conhecimentos de Direito Laboral. Passou assim a beneficiar de um crédito de quatro dias por mês para poder participar nas reuniões do sindicato.
Mas Mário fez mais: de forma a melhor poder defender-se de uma eventual ofensiva dos advogados da empresa, matriculou-se no curso de Direito. Como trabalhador-estudante, passou a poder ausentar-se do trabalho durante dois dias por cada prova de avaliação. Como tinha oito provas escritas por ano, às quais fazia questão de somar oito orais, o curso rendeu-lhe 32 dias de faltas justificadas por ano.
Passado um tempo, a habilidade de Mário tornou-o extremamente popular na sua freguesia. Ao ponto de os seus vizinhos organizarem um movimento de apoio à sua candidatura para a presidência da junta. O qual Mário agradeceu comovidamente, até porque lhe permitiu beneficiar de mais oito dias de faltas justificadas durante o tempo de campanha eleitoral.
O tempo passou e o plano de Mário estava a ser brilhantemente executado. Mas, depois de 35 semanas sem pôr os pés na empresa, a sua sorte tinha necessariamente de acabar, como se veio a verificar: não só Mário perdeu as eleições autárquicas, como foi alvo de um processo disciplinar, com fundamento na falsificação de um atestado médico.
Durante o processo, a sua entidade patronal suspendeu-o do exercício de funções, sem perda de retribuição. E durante as 12 semanas que durou o processo (Mário usou de todos os expedientes dilatórios ao seu dispor para continuar a preguiçar à custa da empresa), jamais lhe faltou a confiança no seu bom desfecho. Porque Mário podia exagerar no gozo dos seus direitos, mas não ia ao ponto de falsificar atestados médicos.
Quando o processo foi arquivado por falta de provas, apenas restou ao patrão o gozo pérfido de ver Mário regressar ao trabalho, uma vez que este alcançara todos os limites de faltas que podia dar naquele ano. Era o fim da aventura.
Pelo menos era isso que pensava o patrão. Porque Mário só pensava em longos passeios de barco no alto mar. Afinal, ainda lhe restavam 25 dias úteis de férias para gozar naquele ano, cujo direito soubera conquistar com tanto sacrifício. Depois de 47 semanas a faltar justificadamente, Mário estava arrasado. Bem precisava de descansar.

sexta-feira, junho 16, 2006

O Mundial às fintas com o PIB

Quando Luís Figo ensaia o drible pelo lado esquerdo do relvado, com os olhos colados à bola e a cabeça a sintonizar a latitude da baliza, vemos bem mais do que um semideus a levar o país aos ombros para cumprir a vontade de Zeus e de Luís Filipe Scolari. E a magia do esférico que comanda com os pés tem uma missão ainda mais poderosa do que a de simplesmente ultrapassar a linha imaginária daquele rectângulo com 18 metros quadrados, que dá pelo nome de baliza.
Porque, como em tudo, há sempre um ângulo bem mais quadrado do que o ângulo recto: se rebobinarmos a fita e visionarmos o filme em câmara lenta, não veremos um dos maiores craques mundiais a bolinar contra ventos e marés, como um Vasco da Gama ressuscitado, no meio campo do adversário. Veremos, isso sim (pelo menos os mais permeáveis à publicidade), um atleta de alta competição com chuteiras Nike Mercurial Vapor III a conduzir, com o estilo de um homem Armani, um esférico Adidas Match Ball 2006 com tecnologia Power Balance.
Veremos também, ao fundo do ecrã, uma linha de painéis electrónicos a fazer publicidade subliminar às quinze multinacionais que deram o seu apoio ao Mundial da Alemanha: desde as grandes marcas de cerveja, refrigerantes e produtos de barbear, até aos gigantes mundiais de telecomunicações, cartões de crédito e pneus para automóveis.
No intervalo dos jogos, teremos ainda a oportunidade de ver um anúncio ao “relógio oficial da selecção”, que leva a assinatura de Luís Filipe Scolari e pode ser pago em cinco mensalidades.
Sejamos lúcidos, porque mesmo ao lado do Mundial da Alemanha, outro campeonato se joga: o campeonato do marketing global, bem mais competitivo e lucrativo do que o de futebol.
Só para o Mundial 2006, aqueles mesmos quinze patrocinadores investiram mais de 650 milhões de Euros em publicidade. Dez vezes mais do que o investimento realizado para o Mundial de Itália de 1990. Ou, visto sob o ângulo das contas públicas nacionais, o equivalente a 0,4% do PIB português. E mais do que o valor do aumento da riqueza nacional entre 2004 e 2005.
Só que o campeonato do mundo é mesmo na Alemanha e o retorno do investimento vai direitinho para as grandes multinacionais dos países ricos, para os investidores e para o país anfitrião. Lamentavelmente, os seus efeitos não se farão sentir nas contas públicas nacionais, como se fizeram sentir durante o Euro 2004. Ou será que farão?
Ultimamente, é frequente ouvir alguns comentadores dizer que o Mundial vai deixar a sua marca no PIB nacional. Partindo dos 262 dias úteis de que os portugueses dispõem anualmente para trabalhar e mostrar quanto valem, perguntam eles quanto valem os portugueses quando podem ver a selecção jogar num canal nacional, às duas da tarde, num dia da semana. Como é evidente, pouco, ou mesmo nada, como reconheceram aliás os deputados da Nação, ao cancelarem o plenário inicialmente agendado para a tarde em que a selecção jogou com o México.
Assim, do mesmo modo que o país viu o PIB crescer no primeiro trimestre, em parte à boleia da menor frequência de feriados face a igual período do ano passado, podemos sempre especular se o país não arrepiará caminho no segundo trimestre, à custa das nossas “escapadelas” para ver o Mundial. O nosso ministro das Finanças diz que, se a produtividade for reduzida e as exportações não puderem crescer, a salvação só poderá estar do lado do consumo interno. Mas será que o consumo de cachecóis, bandeirinhas, cerveja e ecrãs LCD fazem andar o país?
A situação é complicada. E tudo isto porque não conseguimos mesmo sobreviver sem deixar de ver 22 rapazes correr atrás de uma bola de couro e ar comprimido, para a colocarem na baliza do adversário, sem poderem usar os braços, sob a batuta de um homem de preto.
Às vezes pergunto-me se não devíamos criar uma lei que mandasse acelerar o movimento de rotação da terra para que o ano tivesse mais do que 365 dias. Já que o Governo faz tantas leis, porque não faz mais esta?